201 – Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967)

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1967 / Brasil / P&B / 108 min / Direção: José Mojica Marins / Roteiro: José Mojica Marins, Aldenora de Sá Porto / Produção: José Mojica Marins, Augusto Pereira, Antonio Fracari (Produtor Associado) / Elenco: José Mojica Marins, Tina Wholers, Nadia Freitas, Antonio Fracari, José Lobo

 

Zé do Caixão está de volta! O expoente máximo do terror nacional, o coveiro mais famoso do cinema brasileiro, quiçá mundial, ataca novamente em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, continuação direta de À Meia-Noite Levarei sua Alma de 1964.

E convenhamos, mais uma vez José Mojica Marins dá ao seu filme um dos melhores títulos de filmes de terror de todos os tempos! Foram essas maldições (levarei sua alma, encarnarei no teu cadáver) que transformaram o personagem em um dos mais famosos e mais agourentos do país, tanto que suas pragas fazem sucesso até hoje. Na época do saudoso Cine Trash na Band, ele sempre soltava a maldição do dia.

O temido coveiro Josefel Zanatas, ou Zé do Caixão para os mais chegados, continua sua insana busca por um filho, para perpetuar a sua espécie como homem superior. Após sobreviver ao infortúnio do final do primeiro filme, agora Zé rapta seis mulheres para entre elas, escolher sua parceira, que também seja uma mulher superior, livre de medo e crenças, a fim de ficar grávida do coveiro.

Nesse processo de escolha, ele faz as pobrezinhas comerem o pão que o diabo amassou, agora com a ajuda de Bruno, seu capanga corcunda e deformado, ao melhor estilo assistente de cientista louco. Assustando-as com aranhas, ele acaba escolhendo Márcia, a única que não teve medo dos bichos asquerosos. As demais terão um destino sombrio, já que as joga em um fosso cheio de cobras venenosas que as matarão em poucos minutos. Só que antes de Jandira (interpretada pela ex-miss Tânia Mendonça), uma das cativas, morrer, ela roga a praga que encarnará no cadáver de Zé, atormentando-o pelo resto do filme.

Malditas aranhas!
Malditas aranhas!

Mojica sempre foi um dos mais inventivos e originais cineastas do cinema nacional, isso sem a menor dúvida, mesmo sendo completamente marginalizado. Com o inusitado sucesso de À Meia-Noite Levarei sua Alma, os produtores Augusto Pereira e Antônio Fracari levantaram o dinheiro necessário para o diretor fazer sua sequência. Com orçamento maior que de seu primeiro trabalho, vemos toda a criatividade de Mojica aflorar em um filme muito superior que seu predecessor, tanto de forma técnica e narrativa, com maior liberdade para a construção de sua história, até trabalhar de forma melhor em seus cenários, como por exemplo o lúgubre pântano, que nada era mais que uma poça cheia de água em um quintal de uma sinagoga no bairro do Brás, onde foi filmado 95% do longa.

Além disso, Mojica foi capaz de ousar ainda mais nesse segundo filme da trilogia, mantendo em nível de ebulição sua idiossincrasia de tripudiar sobre os costumes tão enraizados na cultura popular brasileira, elevando o grau da sua blasfêmia como uma metralhadora giratória de questionamentos morais e religiosos, e também aumentando o uso de sangue, mortes grotescas, sexualidade e misoginia. Mas o ponto alto do filme, mais impressionante e assustador é quando em um sonho, Zé é arrastado por um encosto para o inferno, e lá conhece a tortura e danação que o espera por toda a eternidade, numa cena realmente chocante, única colorida de todo o filme, com dezenas de almas condenadas sofrendo e sendo espetadas por diabos com tridentes, filmada em uma matiz de cores quentes e frias estouradas, dando a impressão de uma poderosa viagem lisérgica, que faria Dario Argento ficar corado.

Fora os diálogos mordazes e provocativos. Mais um daquelas pérolas brilhantes de Mojica, ao condenar o irmão de sua escolhida e filho do seu arqui-inimigo a uma armadilha mortal, conclamando que Deus o salve de queimar uma corda que segura uma pedra, que se despencar, esmagará sua cabeça, ele solta: “Se for para o céu, dê alô para Deus. Mas se seu destino for o inferno, dê meu endereço para o Diabo!”. É ou não é um gênio?

Mas claro que a censura não deixaria barato toda essa heresia em plenos anos de chumbo do nosso país, e para o final de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver foi se obrigado a colocar uma resposta moralista e católica de Zé do Caixão reconhecendo Deus como seu legítimo pai e salvador, em seus minutos finais e pedindo perdão para encontrar a redenção na cruz, ignorada quase quarenta anos depois no terceiro filme que fecha a trilogia, A Encarnação do Demônio.

A praaaaaaga do dia:
A praaaaaaga do dia:

Serviço de utilidade pública:

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