Slasher à brasileira

Habemus nosso Leatherface tupiniquim em Condado Macabro, codireção de Marcos DeBrito e André de Campos Mello, referência e homenagem rasgada ao cinema de terror dos anos 70 e 80, mas com aquele toque de regionalidade.


O Brasil pode bradar aos ventos que finalmente ele tem seu primeiro slasher movie! E pode ter orgulho que ele é DOS BONS! Condado Macabro, codireção de Marcos DeBrito e André de Campos Mello, é uma baita referência/homenagem ao cinema dos anos 70 e 80, com toda a estética de um filme de terror estrangeiro, mas que preserva características de regionalidade de nossa terra brazilis.

Adaptação de um curta metragem da época da faculdade, que depois de 13 anos tornou-se um longa, a fita teve sua história toda remodelada, incluindo aí a criação de dois personagens chaves, os palhaços Cangaço (Francisco Gaspar) e Bola 8 (Fernando de Paula), mantendo do original apenas o nome e um único personagem, Jonas (Beto Britto), que na verdade é um anagrama de Jason, o vilão clássico da série Sexta-Feira 13.

Jonas, assim como grande parte de Condado Macabro parece na verdade uma grande “cópia” de O Massacre da Serra Elétrica de Tobe Hooper, descaradamente sua principal influência, tanto no quesito do assassino sádico munido de uma motosserra, que aqui ao invés usar uma máscara de pele humana, o faz com pele de porco (instantaneamente já remetendo a outro filme emblemático do período, Motel Diabólico), quanto pela existência de uma espécie de família psicopata. Aqui eles não são canibais, mas alimentam sua vara de porcos com carne humana. A cena de Jonas no matadouro estrebuchando e esfolando um suíno é para os de estômago forte!

maxresdefault (2).jpg
Fazendo porcaria!

Só que essa “cópia” não é um problema e nem um demérito, uma vez que desde o começo, e até mesmo em entrevistas, a dupla de diretores sempre deixou clara sua intenção em homenagear “tudo que é do gênero” e os filmes pelos quais são apaixonados. Melhor ainda que seja um filme nacional, já que esse tipo de “cópia” é encontrada a rodo em todo o cinema de terror, principalmente no próprio americano.

A trama é das mais clichês do cinema slasher, e não poderia ser diferente: um grupo de jovens vai passar o final de semana em uma casa afastada no interior. Durante a viagem, eles dão carona a Bola 8, palhaço de rua inocente, parceiro do sacana Cangaço, que cansado dos pequenos golpes e furtos que não dão dinheiro, resolvem invadir a casa e assaltar a playboyzada. O que eles não imaginam é que aqueles que só queriam passar um feriado idílico e transar, já estão na mira da família insana.

A história toda é contada por meio de uma narrativa não linear que tem como ponto de partida o interrogatório de Cangaço pelo investigador Moreira (Paulo Vespúcio) que o deteve em flagrante na cena do crime, e espera uma confissão para jogar o palhaço atrás das grades, jogando pistas entre flashbacks, da carnificina que se passara naquela mansão.

Pois bem, Condado Macabro tinha potencial, sem brincadeira, de ser um dos filmes mais perturbadores do gênero recente e disparadamente o melhor filme de terror nacional já feito. Sua metade final é de uma selvageria e violência gráfica absurda, como manda a cartilha do exploitation, com direito a uma final girl, um verdadeiro banho de sangue (excelente maquiagem de Fabio Servullo e Olivia de Brito) e uma crescente de suspense que te faz roer as unhas, até chegar a DOIS acachapantes plot twists, mesmo que um deles deveras didático.

maxresdefault (1).jpg
Hey, boneca!

Só que sempre tem um mas, e nesse caso, o problema gritante é exatamente o exagero cômico que eles imprimem em sua primeira metade, que passa do ponto e, a maioria das vezes, chega a ser dos mais sem graça, sempre com piadinhas de conotação sexual que mais parecem um esquete de American Pie, só que com tempero brasileiro para aproximá-lo da nossa cultura jovem, que um filme de terror propriamente dito.

Apesar da construção proposital desse humor escrachado no intuito de relaxar o espectador, preparar para a pancada e o rolo compressor que é seu desenrolar, a fita perde o prumo pela quantidade absurda de bobagens, chegando até soar repetitivo na galhofa. Acredito que se Condado Macabro tivesse, claro, seus alívios cômicos, mas uma dose de humor negro ao invés do puro e simples besteirol e piadas do Zorra Total, e focasse realmente em ser um filme depravado e brutal, definitivamente estaríamos nos deparando com um possível novo clássico.

Outro grande problema do filme é que uma de suas inspirações é justamente Rob Zombie. Além de um dos personagens citar Rejeitados pelo Diabo como o filme mais perturbador e escroto já feito, é óbvio o quanto ele remete A Casa dos 1000 Corpos em sua construção estética, com o uso de granulado, emulsão, filme sujo, fotografia estourada, uso de câmera lenta e enxerto de imagens fora de contexto, que também acaba soando desnecessário, uma vez que emula um dos mais picaretas diretores do gênero (olha a polêmica!).

Agora, há de se tirar o chapéu que diferente dos slasher movies convencionais, onde personagens com a personalidade mais rasa que um pires são enxertados apenas para entrar na contagem de cadáveres, Condado Macabro trabalha e desenvolve bem suas personas para gerar empatia do público, e claro, com seus arquétipos e estereótipos baseados no clichê do horror:

cena-do-filme-condado-macabro-1435183453556_1024x768.jpg
Cangaço ou CAGAÇO?

Beto (Rafael Raposo) é o escroto que quer trepar de qualquer jeito (a brasilidade do personagem vai além do teor das piadas, com sua indumentária toda de camisas de time de futebol falsas); Theo (Leonardo Miggiorin) é o garoto bobo, casto e todo certinho e sua irmã, Mari (Larissa Queiroz), talvez seja a personagem menos trabalhada em termos de personalidade; Vanessa (Olivia de Brito), ou como é pejorativamente chamada durante toda sua estada em cena, Vanessão, é a impopular fã de música brega (Frankito Lopes, Carlos Alexandre e Reginaldo Rossi estão na trilha sonora) que vai servir como para-raios de bullying e vítima de uma metralhadora giratória de piadas preconceituosas de gosto duvidoso de cunho sexual ou por conta de sua aparência/ peso; e por fim, Lena (Bia Gallo – também diretora assistente), a garota safa, que nada lembra as heroínas virginais de praxe, que faz sexo e strip-tease, sendo a versão brasileira da Sally de Marilyn Burns no terceiro ato.

Em compensação, tirando esse núcleo com seus recursos de dramaturgia limitado (com exceção de Lena em seu momento final girl), o resto dos atores dá show de atuação, elevando ainda mais o nível de Condado Macabro, principalmente Gaspar com seu Cangaço (cínico durante o interrogatório e assustador na cena final) e a psicótica personagem de Marcela Moura, uma dos membros da família sádica.

Apesar dessa, digamos, infeliz escolha do exagero humorístico para permear parte do filme, Condado Macabro é absolutamente incrível, tendo levando com louvor o prêmio do júri de Melhor Filme Brasileiro no Fantaspoa, é  gory e tresloucado ao extremo quando se propõe, não soa falso e caricato por ser ambientado no Brasil, respeita a regionalidade sem precisar resgatar elementos de nosso folclore, como vem acontecendo bastante nessa nova e excelente safra do cinema nacional – tendo isso como seu grande diferencial – e funciona como uma homenagem rasgada e apaixonada, seu intuito desde o primeiro momento.

E convenhamos, onde mais veríamos uma garota fazendo strip-tease ao som de “Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme” de Reginaldo Rossi, do que no nosso glorioso cinema de terror nacional?

CONDADOstill01.jpg
Leatherface brazuca!

 

4 comentários Adicione o seu

  1. Vinicius disse:

    Primeiro slasher não, Marcos. Tem o Shock: Diversão Diabólica, de 1983, que é um slasher bem na pegada de seus congêneres do início dos anos 80. Não tem gore, fotografia escura pra cacete, mas vale a citação por ele ser o primeirão do gênero, né?

    1. Marcos Brolia disse:

      Opa, bom saber! Quero assisti-lo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s