Um presente de thriller

Filme maduro, classudo, que prende o espectador até uma interessantíssima inversão de valores sobre quem é o herói e quem é o vilão em seu final aberto, O Presente de Joel Edgerton e produzido por Jason Blum é uma bela surpresa


 

Você já ouviu o termo “suspense estilo Supercine”, a sessão de cinema das noites de sábado da Rede Globo? Era uma série de filmes de segundo escalão exibidos na programação da emissora do Plim-Plim, geralmente com um mesmo plot, mesma construção de personagens, vítimas indefesas, uma investigação em curso com uma reviravolta na descoberta da identidade do vilão, e que pareciam sempre o mesmo filme pasteurizado logo nas chamadas dos comerciais.

O Presente, mais uma produção do incansável atual midas do terror moderno, Jason Blum, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas do Brasil, poderia facilmente ter se tornado um “suspense estilo Supercine”, mas por uma série de fatores, ele não se tornou.

O longa é um thriller maduro, classudo, que vai prendendo a atenção do espectador de uma forma desconcertante, crescente em sua construção, tanto de personagem quanto de enredo, mesmo que por vezes batido, até chegar a uma interessantíssima inversão de valores sobre quem é o herói e quem é o vilão (e se realmente há um mocinho nessa história), deixando os conceitos básicos de maniqueísmo jogados para escanteio e debochando da nossa tendência para o juízo de valor.

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#chatiado

Tecnicamente falando, o debute de Joel Edgerton na direção é impecável. Ele cria o clima certo, mantendo o longa em banho-maria, abusando do auxilio da trilha sonora e fotografia minimalistas, trabalhando os personagens de forma excelente, até uma explosão psicológica final, tal qual a Cavalgada das Valquírias que explode no home teather de Simon de Jason Bateman, um ator de comédias que está ótimo com toda sua sobriedade, cinismo e futura canalhice descoberta.

Na trama, um casal muda-se de Chicago para a Califórnia para um novo recomeço, quando Simon recebe uma excelente proposta de emprego e Robyn (Rebecca Hall, perfeita!) tenta reconstruir sua vida após a perda da gravidez. Tudo parece mil maravilhas para o típico marido e mulher suburbano dos EUA, quando um antigo colega de colégio de Simon, Gordo (também interpretado por Edgerton), aparece e começa a se aproximar do casal, tentando conquistá-los com simpatia e presentes que são deixados em frente de sua casa.

Falar muito sobre o roteiro, também escrito por Edgerton, poderá estragar muitas das surpresas de O Presente, mas como a própria sinopse do filme já alardeia, há algum entrevero entre os dois no passado, que gerou consequências devastadoras para Gordo, taxado de “esquisito” na escola, e esse seria um momento para o acerto de contas.

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“Up here, Michael”

 

Só que a forma com que O Presente se desenha, e até mesmo lendo esse texto, a nítida impressão que dá é que Gordo é um daqueles psicopatas de marca maior (estilo Supercine), vilanesco, invejoso, que quer se vingar e acabar com uma vida perfeita, com o verdadeiro american way of life, colocando em seu antigo colega de escola, e no quer que ele tenha feito, toda a culpa por seus fracassos e infortúnios. Existe isso de fato, mas não é do jeito que você imagina e Simon nem é tão vítima assim também.

O Presente não cai em suas próprias armadilhas fáceis e foge dos padrões convencionais do suspense para o espectador médio, e a todo momento, conforme os minutos vão passando e você vai se aprofundando nos desvios psicológicos de todos os personagens, inclusive do casal em questão e do personagem de Bateman, que deveria ser a vítima de um lunático – daqueles bem maquiavélicos, diga-se de passagem – e o herói do cavalo branco, mas vamos descobrindo seus verdadeiros escrúpulos a ponto de detestá-lo, Edgerton vai subvertendo a expectativa do público com sua lógica narrativa, pistas falsas, reviravoltas na história, mudanças de perspectiva e ambiguidade moral DAS BRAVAS, até aquela sensação de gosto amargo na boca em seu final em aberto.

Que aliás, levanta um elefante de dúvida que irá pairar eternamente na cabeça do protagonista, e dos espectadores, que poderia render discussões de bar ao melhor estilo Dom Casmurro, se a Capitu traiu ou não Bentinho. A indagação não acaba, não é respondida quando os créditos sobem, e esse é o truque de mestre.

O Presente é um thriller inteligente que evolui de forma natural e realista sem tropeçar nas próprias pernas e evita saídas fáceis, que apresenta personagens tão críveis quanto eu e você, todos eles vítimas e vitimizados ao seus próprios modos, eternos reflexos de escolhas, erros de julgamento, decisões erradas, desvios de conduta, mesquinharia e traumas, que serão levados por todos ali presentes, até suas trágicas consequências.

Publicado originalmente no Boca do Inferno
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Só observo

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