Por que “Mulder and Scully Meets the Were-Monster” foi tão sensacional?

Episódio de Arquivo X desta semana, escrito por Darin Morgan, foi uma divertidíssima sátira, autoparódia e homenagem para os fãs da velha guarda da série!


Eu não sou um cara que tem costume aqui no 101HM ficar comentando episódio por episódio de séries. Geralmente escrevo sobre o piloto e o season finale, e faço minhas resenhas pontuais de algumas lá no Boca do Inferno. Mas, PRECISAMOS FALAR SOBRE O EPISÓDIO DESSA SEMANA DE ARQUIVO X.

Antes da estreia da nova temporada/ revival de Arquivo X, e principalmente quando não havia muitas pistas e informações sobre o caminho que a série seguiria, uma das ideias que eu tinha em mente era justamente que eles estavam tentando pavimentar caminho para uma nova geração de fãs, ainda mais quando anunciada a presença de dois novos agentes – que ainda não deram as caras – Lauren Ambrose como a Agente Einstein e Robbie Amell como o Agente Miller.

Depois de três episódios, sendo o terceiro o SENSACIONAL “Mulder and Scully Meets the Were-Monster” eu estou percebendo que cada vez mais, e de forma mais evidente, que a volta de Arquivo X é mesmo para os fãs da velha guarda da série, tamanho a tonelada de referências, homenagens e autoparódia presentes, e principalmente o nível altíssimo de galhofa, marca registrada de muitos episódios escritos por Darin Morgan, roteirista responsável por este aqui.

Muitas pessoas detestaram e criticaram o episódio na Internet por aí – juro que ouvi gente até falando que parecia coisa de Ed Wood, no mal sentido – mas definitivamente, esses não eram fãs de Arquivo X, não entendem absolutamente nada da série, não sacaram um monte de piadas e referências deliciosamente colocadas em praticamente todos os 44 minutos de duração, e mais ainda, não estão acostumados com os episódios nonsense escritos pelo Morgan mais novo, responsável por apenas seis dos 202 das nove temporadas anteriores, mas quatro deles dos mais memoráveis e fundamentais para uma mudança na direção do seriado.

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Mando nudes?

“Mulder and Scully Meets the Were-Monster” nos leva de volta aos melhores momentos cômicos de Arquivo X, como o inigualável episódio “Do Espaço Sideral”, do próprio Morgan, na terceira temporada, exatamente no mesmo nível de sátira e tosqueira, e tantos outros como o premiado “O Repouso Final de Clyde Bruckman” e “A Guerra das Baratas”.

Os agentes de FBI se veem às voltas com um assassinato onde o principal suspeito é um monstro, uma espécie de Homem-Lagarto, com um visual pra lá de tosco metido numa roupa emborrachada de zíper (muita gente por aí brinca que o Walderrama de A Noite do Chupacabras, de Rodrigo Aragão, foi a inspiração para o personagem). Em nenhum momento o episódio tenta se levar a sério, e o que vemos é David Duchovny e Gillian Anderson nitidamente se divertindo horrores com a autoparódia (e com uma química absurdamente incrível entre ambos).

Mulder, em uma crise de meia idade, está todo descrente com o Arquivo X, resmungando que todos os casos inexplicáveis foram explicados nos últimos anos, uma vez que a maioria foi descoberta como hoax, ou simples explicações naturais, como o degelo, e que claro, hoje todo mundo tem um celular para tirar uma foto da criatura ou o que seja. Isso enquanto ele está jogando seus lápis amarelos no pôster “Eu Quero Acreditar”, que dessa vez, é um pôster da Scully. Só faltou ele comendo as sementes de girassol.

A grande sacada do roteiro inteligentíssimo – e não me venha dizer o contrário – é que o tal “Monstro da Semana”, o Homem-Lagarto, era originalmente uma criatura da floresta que, subvertendo toda e qualquer lógica convencional do cinema fantástico e de terror, foi mordido por um humano, e houve uma metamorfose reversa, com o mutante se tornando um homem.

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Tomou um porre de catuaba e foi mandar mensagem de voz no WhatsApp pra ex no túmulo do amigo… Quem nunca?

Ao tornar-se humano, ele passa a ser acometido pelos nossos desejos, acompanhado por um caminhão de crítica social mordaz velada. A primeira coisa que ele quer fazer ao acordar de manhã é arrumar um emprego – que dois dias depois ele já está de saco cheio! Ele passa a desenvolver todos os vícios e traquejos (ou falta de) sociais inerentes a nossa personalidade, como tomar café, beber, adotar um cachorro, consumir pornografia, mentir sobre sua vida sexual, continuar em um emprego enfadonho por medo de não conseguir se aposentar…

Enquanto isso, Mulder, que questionava se queria passar o resto da sua vida num porão correndo atrás de devaneios e farsas, ao conhecer o monstro e ouvir sua história, a priori nada plausível – como quase tudo no seriado – mas depois ao vê-lo se transformando no lagarto humano, servirá como novo combustível para o agente, que assim como nós, ainda quer acreditar. A marca registrada de Morgan está toda lá no episódio: divertido, experimental, metafísico, metalinguístico e uma mistura de sensibilidade alegre e melancólica ao mesmo tempo.

Para os fãs, há diversos easter eggs em todo episódio que são nada menos que deliciosos. Começa com uma homenagem gritante a Kolchak e os Demônios da Noite, a série que inspirou Chris Carter a escrever Arquivo X.  A versão humana do monstro, batizada de Guy Mann veste-se igualzinho ao Kolchak de Darren McGavin, e em paralelo, sua sugestão que o Homem-Lagarto pode ser morto com um vidro verde atravessado em seu apêndice, era o típico recurso de roteiro usado no televisivo, onde Kolchak era, como Mulder, um crente no meio de céticos, e a série sempre teve esse viés cômico.

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Lápis ao alvo!

Enquanto Mulder e Guy conversam no cemitério, eles estão ao lado de duas lápides, de Kim Manners, famoso diretor e produtor da série, falecido em 2009, e Jack Hardy, diretor-assistente do longa Arquivo X – Eu Quero Acreditar de 2008, dos filmes Premonição, A Vingança de Williard e Natal Negro (todos dirigidos por Glen Morgan) e da série Millneium (também de Chris Carter). No cemitério também pode ser visto outra tumba com o nome de Jerry Hardin, o ator que interpretou o célebre informante Garganta Profunda na primeira temporada, famoso pela emblemática frase “Não confie em ninguém”

O cão adotado por Guy, e em seguida por Scully, chama-se Daggoo, nome de um dos arpoadores de Moby Dick, assim como Queeqeg, o ex-cachorro de Scully, inclusive citado por ela, que surgiu exatamente em um episódio escrito por Darin Morgan, “O Repouso Final de Clyde Bruckman” e foi devorado em “O Monstro do Lago”. E falando em “Clyde Bruckman”, daí vem outra sensacional referência quando Scully diz para Mulder que ela é imortal, surgida de uma teoria dos fãs quando Bruckman, um vidente que sabia dizer quando e como as pessoas iriam morrer (Mulder, por exemplo, faleceria por autoasfixia erótica), não sabia precisar sobre a morte da agente. Além disso, no episódio Tithonus, da sexta temporada, o fotógrafo Alfred Fellig aparentemente troca sua própria imortalidade para salvar Scully.

Para fechar, Guy certo momento é encontrado escondido em um banheiro químico, como o Flukeman do episódio “O Hospedeiro”, que por sinal, foi interpretado por Morgan, e o psiquiatra visitado por Mulder, que prescrevera um antipsicótico para Guy, diz que às vezes os “monstros moram aqui”, apontando para o abdômen, em referência ao episódio “A Fraude”, também escrito por Morgan, onde a aberração de circo Leonard era irmão siamês de Lanny, colado por seu abdômen, que se desprendeu do irmão tentando encontrar um novo corpo, e devorava bem aquela região de suas vítimas. Teve até uma sacanagem com Mulder deitado na cama só de cueca vermelha, tirando um sarro com a infame cena dele saindo da piscina de sunguinha de bombeiro e dando um pito em Alex Krycek na segunda temporada. E ah, não vamos esquecer que o toque do celular de Mulder é a música tema composta por Mark Snow. Genial é pouco!

Certo momento do episódio, Scully diz a Mulder que havia se esquecido de “quão divertido podia ser um caso daqueles”. Nós também nos esquecemos nesse hiato de quase 14 anos, de como também Arquivo X poderia nos divertir em episódios como esse. “Mulder e Scully Meets the Monster” nos lembrou disso. Obrigado, Morgan!

Matéria originalmente publicada no Boca do Inferno
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Prazer, Walderrama dos Santos!

 

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