HQRROR #09 – Papa-Capim – Noite Branca

Vamos brincar de índio. Mas sem mocinho pra me pegar…!


Em 1963 nascia nas páginas da Folhinha de São Pauloo Papa-Capim. Naquela época, o icônico Maurício de Souza, criador do curumim, ainda não tinha “acertado” os traços do pequeno índio. Papa-capim era retratado como um adulto robusto, de feições sarcásticas. Foi preciso repagina-lo até que ele chegasse a sua forma clássica de simpático menino indígena, amigo de Mônica e sua Turma.

Esse processo de repaginação é o que encabeçou a Maurício de Souza Produções a desenvolver o projeto “Graphic MSP”. A ideia é simples: Fazer com que os tradicionais personagens da Turma da Mônica ganhem uma nova roupagem em histórias mais sérias e adultas.

Aqui, falaremos da releitura do nosso pequeno compatriota indígena, feita por Marcela Godoy e Renato Guedes, intitulada Papa-Capim – Noite Branca.

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O roteiro se desenvolve com o seguinte argumento: Prenunciasse na floresta a vinda de um terrível ataque oriundo de outro mundo. Uma horda de monstruosos seres albinos atravessa a mata, dizimando tribos inteiras e aterrorizando os sobreviventes. No caminho destas criaturas está a tribo de Papa-Capim. Para salvar a si mesmo e aqueles que ama, nosso herói terá de lutar… e ele não estará sozinho.

A história é simples e direta, nada significativo precisa ser acrescentado. O destaque dela está na profundidade de suas metáforas. As mais óbvias já saltam aos olhos logo na sinopse – Homem Branco vs. Índio – mas, no argumento da dedicada Marcela Godoy, esse antagonismo ganho um outro nível de profundidade. Misturando personagens folclóricos brasileiros pouco conhecidos e elementos da mitologia europeia, a roteirista dá a Papa-Capim mais do que adversários – ela dá a ele o símbolo da ruína cultural indígena.

Uma pena que isso não baste para tornar a HQ o primor que ela poderia ter sido. Infelizmente, a resolução do conflito instaurando ao longo da história é de uma simplicidade que decepciona. O final é tão previsível que faz com que os acertos do roteiro percam um pouco do seu brilho.

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Isso também acontece com as ilustrações. Renato Guedes trabalhou muito bem nesse projeto. Os desenhos foram feitos digitalmente do início ao fim, o que dá a história um tom de realismo muito forte. Porém, essa é a melhor forma de se passar essa história?

Entendam, eu gostei muito do modo como a HQ foi delineada, gostei mesmo. Existe uma cena em que uma das personagens se posiciona de uma tal forma que me fez crer na real motivação do ilustrador em trazer o máximo de realidade aos desenhos. Mas, levando em consideração o teor da obra, não teria sido mais significativo usar elementos gráficos intrinsecamente indígenas, ou ao menos, ter tentando desenvolver uma mistura entre os modos de desenhar? Eu acredito que sim.

Lançada pela Panini Comics com 82 páginas, Papa-Capim – Noite Branca despertou em mim sentimentos conflitantes. Ao mesmo tempo em que fiquei fascinado pelo modo como elementos esquecidos e muito pertinentes de nossa cultura foram expostos (destaque para uma passagem de I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias, usada em uma cena de modo épico) achei que essa HQ poderia ter sido mais. Muito mais!

Leiam, pois vale a pena, mas não tenham expectativas tão altas.

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