849 – A Garota Morta (2008)

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2008 / EUA / 100 min / Direção: Marcel Sarmiento, Gadi Harel / Roteiro: Trent Haaga / Produção: Marcel Sarmiento, Gadi Harel; Brendan Davis, Cynthia Graner, Vince P. Maggio, Blue Nelson (Coprodutores); Marcel Sarmiento, Gadi Harel, Robert Hickman, Christopher Webster (Produtores Executivos) / Elenco: Shiloh Fernandes, Noah Segan, Candice King, Eric Podnar, Jenny Spain, Andrew DiPalma


Antes de qualquer análise sobre a qualidade cinematográfica de A Garota Morta, é demasiadamente necessário inclui-lo na atual discussão da cultura do estupro, ainda mais depois do acontecido absurdo da semana passada aqui no Brasil, quando uma jovem foi abusada sexualmente por 30 homens e o vídeo gravado e compartilhado na Internet, e o choque e revolta que tamanha barbárie causou.

Caso você não tenha se sentido UM VERDADEIRO LIXO sendo homem pelo que aconteceu, não sentiu empatia pelo nojo, repúdio, reação a e luta das minas, então certamente você tem um problema sério. E ainda nessa ressaca moral, assistir A Garota Morta foi uma das piores experiências da minha vida.

Afinal, o filme da dupla Marcel Sarmiento e Gadi Harel, nada mais é que uma metáfora a cultura do estupro, da objetificação da mulher, de tê-la como propriedade, do machismo, da misoginia, do abuso de poder, da violência física. Em nenhum momento, apesar de se tratar de um filme de zumbi, o tema necrofilia, uma das “bandeiras” do longa, foi o que me veio a mente.

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Nao tem a menor graça para colocar piadinha nas legendas

Você assistir aqueles quase intermináveis 100 minutos de abusos sexuais, atitudes de homem escroto e cumplicidade dos amigos machos (no filme são três, depois cinco, mas não há diferença alguma entre um só ou 30) é de causar uma sensação péssima e voltar mais uma vez a se sentir um completo bosta, só por ter nascido com um caralho no meio das pernas e mais uma vez lhe ser jogado na cara o que os mesmos de seu sexo são capazes de fazer com as mulheres em uma cultura arraigada há séculos.

Talvez em outro momento de vida, A Garota Morta possa ter representado sim algum nível de perplexidade, mas haveria também a questão de ser um inteligente terror adolescente, ousado, repleto de humor negro, com requintes de vingança ao melhor estilo rape and revenge, do gore, e de qualquer outro elemento que poderia nublar o foco da questão, de um gênero já tão machista e misógino quanto o horror. Mas não nesta semana pós o estupro coletivo no Rio de Janeiro.

Dois adolescentes, Rickie (Shiloh Fernandez) e JT (Noah Segan) em uma tarde matando aula, invadem um manicômio abandonado e em uma sala escondida, com uma porta trancada e enferrujada, encontram a garota morta do título, nua, amarrada na cama. Ela é um zumbi. Ela vira escrava sexual de JT, ela não reclama, ela topa tudo, e o sujeito logo chama um outro amigo para também abusar da moça. Rickie não compactua, mas também não o enfrenta, não chama a polícia, questiona pero no mucho. É como eu e você já fizemos em casos de machismo envolvendo os brothers. Ele não é o mocinho do filme, mesmo tentando libertá-la em certo momento. Ele também a usa, nem que como instrumento de vingança contra o namorado de sua paixão do colégio. E o final do filme, por meio de suas escolhas, não deixa a menor dúvida sobre essa questão.

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Qual a diferença entra uma garota morta, drogada ou alcoolizada? Nenhum, cara pálida. Taí a força metafórica de A Garota Morta, e onde os diretores acertam a mão em cheio, e por mais trágico que seja, o engrandece, mesmo sendo um filme até tosco, estética amadora, com um roteiro repleto de situações inverossímeis e doses de humor negro que no frigir dos ovos não tem graça. Ele é um filme sobre abuso, travestido em cinema zumbi indie adolescente, que tem até Animal Collective e Liars em sua trilha sonora.

Jenny Spain, a atriz que interpreta a garota morta, passa absolutamente todo o filme nua, amarrada, sendo estuprada em várias posições por adolescentes idiotas, as vezes com mais de um ao mesmo tempo – que sabem que nunca vão conseguir nada melhor lá fora, como mesmo dizem, então se veem no direito de aproveitar a situação até a última gota – usando o discurso de que nem humana ela é – mas que de repente, poderia ser traduzida como: ela é mulher – colocando a culpa na vítima, claro. Ela até vai a forra em um devido momento, mas apenas por causa de seu instinto morto-vivo canibal. A vida real é muito mais perversa e nojenta e não dá essa possibilidade do rape and revenge e de infecção zumbi.

Sarmiento (fique ligado nesse nome, que é um daqueles novos cineastas com um baita potencial, que recentemente dirigiu segmentos para O ABC da Morte e V/H/S/ Viral) e Gadi Harel tocam na ferida, pelo menos para mim, e deveria para todos os homens, principalmente os brasileiros depois do absurdo, em um filme que poderia lá não ter toda essas camadas e subjetividades levantadas quando escrito por Trent Haaga há oito anos, mas que hoje, atinge em cheio o estômago, onde assistir a essa obra de ficção, que assustadoramente é muito próxima da NOSSA realidade, indo além de qualquer monstro, fantasma ou demônio, seja uma experiência suja, amoral e desagradável, faz sentir vergonha e lhe faz pensar e traçar milhares de paralelos em sua cabeça.

Espero de verdade, que essa sensação péssima acometa também outros homens ao assisti-lo daqui para frente. E que um “simples” filme de terror cumpra mais uma vez com seu papel histórico: escancarar as fobias e alertar a sociedade de suas mazelas, traumas e até de sua própria falta de humanidade e atitudes questionáveis, mesmo que repleto de metáforas e subjetividades.

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