HQRROR #14 – Lavagem

Uma/Lava outra, lava uma…


Em uma adaptação de seu curta-metragem homônimo lançado em 2011, Shiko traz com Lavagem uma história peculiar, montada no meio de um caminho não revelado e que amplia, com uma lente de aumento, o pânico da rotina.

Um casal vive em uma inóspita ilheta. A esposa religiosa se ausenta para viver um continuado caso extraconjugal. O marido bronco passa o dia enfiado no chiqueiro, alimentando os animais. Com o anoitecer e com a subida da maré, o casal regressa ao lar quebrado para jantar e assistir televisão. Em meio a esse cenário, um pastor, que perdeu a última balsa em direção a civilização, perturba o que parecer ser a rotina dos conjugues. Essa perturbação, disfarçada de dizeres bíblicos, mudará tudo na vida deles.

A simplicidade e a linearidade do roteiro disfarçam uma interessantíssima retratação da insanidade. A narrativa atravessa com velocidade todo o seu eixo. No decorrer de apenas um dia, toda a história é contada. As personagens são aprofundadas de modo pouco tradicional, tendo em suas expressões os principais elementos da personalidade expostos.

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Não existem nomes, nem localidades identificadas, dando espaço para aqueles acontecimentos transcorrerem em qualquer lugar do Brasil. O ponto de conflito, brilhantemente retratado por um pastor, remete a toda uma história de vida não contada da protagonista infeliz e ao horror que os dias dentro daquela realidade custam para ela. A rudeza do amante e do marido, únicas pessoas do convívio diário da mulher, criam nela um sentimento de desumanização. Ela se torna animal, se torna porco.

As ilustrações, como já havia dito, dão profundidade as personagens. Mas não apenas a elas, os animais e os ambiente parecem ter sido trabalhados de modo a constituir outros personagens. A claustrofobia causada pelos efeitos de luz e sombra é determinante para disparar no leitor uma conflitante empatia com a protagonista. Também vale sugerir que nos atentemos as distinções entre o traçado que retrata a realidade e o traçado que representa o mundo televiso da história.

Com um casamento perfeito entre o roteiro e o modo de ilustra-lo, a história trabalha com um horror altamente psicológico que deixa uma incógnita sobre a existência de seu antagonista (se é que podemos chama-lo assim). Lavagem é um livro gráfico impecável, que trará muitas releituras para a total apreensão de todos os seus elementos perturbadores.    

Ficha técnica:

Lavagem – 2015

Roteiro: Shiko

Desenhos: Shiko

Editora: Mino

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