HQRROR #16 – Legião

Fazer arte pode ser perigoso


Quando falamos de quadrinhos, existem trabalhos que nos capturam pela sua história. Outras o fazem por suas ilustrações. No caso de Legião, foi uma combinação desses dois elementos que me convenceu.

Legião se passa na capital argentina, Buenos Aires. Lá, uma jovem artista plástica chamada Azul acaba de descobrir uma nova cor – nomeada ULTRAMÁ. Ao tomar conhecimento dessa invenção, através das notícias transmitidas pela televisão, o músico Felix se retira para ensaiar com a sua banda e entra em um transe que o faz tocar por vinte e quatro horas a fio. Quando ele desperta, trevas estarrecedoras tomaram conta dos céus da cidade. Em meio a incompreensão da população diante do fenômeno, a situação se agrava e uma chuva de sangue vem para preparar o terreno para algo pior. Muito pior.

O roteiro se inicia de fato com a busca pela sobrevivência de Felix nesse novo cenário hostil que se instalou na cidade. Pouco depois de sermos apresentados a essa violentíssima nova realidade, conhecemos os demais personagens que acompanharam Felix em jornada.

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Na medida em que a trama avança, percebemos que existe uma relação direta entre esses terríveis acontecimentos e o surgimento de três coisas: uma cor que nunca deveria ser vista, uma figura que nunca deveria ser esculpida e uma melodia que nunca deveria ser ouvida.

O que se destaca nesse roteiro é a inversão das condições geralmente utilizadas para o desencadeamento de situações apocalípticas. Tradicionalmente, o fim do mundo é precedido por artefatos milenares que há muito foram escondidos ou por descobertas científicas, que com sua prepotência destroem o frágil equilíbrio do planeta Terra.

Mas, esse não é o caso de Legião. Aqui o que comumente é tido como uma força criadora se torna o grande algoz da humanidade. Os avanços das técnicas artísticas se influenciam de modo profético, como se houvesse um mundo além do acesso dos comuns onde estão comportadas ideias malditas esperando para serem realizadas.   
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Em contraste a essa interessante revisão dos termos para o fim do mundo comumente usados em roteiros similares, a narrativa infelizmente perde o fôlego muito rapidamente por escolha do autor. Salvador Sanz reduz a história de modo que ela se torna econômica e conta apenas o essencial para que o leitor seja capaz de captar as ideias basilares da trama, deixando-nos com a impressão de seria possível explorar ainda mais elementos da história, como por exemplo a relação dos personagens centrais com a arte.

As ilustrações são primorosas. Embora as representações de movimento tenham deixado a desejar, cada quadro é estruturado com esmero, tornando todos os elementos que os compõem dignos de admiração.

Ainda por cima temos uma simbólica transição de cores na passagem de cenários, especialmente quando a trajetória da narrativa passa de um local fechado para um aberto e vice-versa.

Em suma, Legião é um álbum muito belo e bem trabalhado em todos os seus aspectos. Rompendo com os clichês das narrativas que costumam se enveredar por temáticas apocalípticas, essa HQ irá agradar leitores que buscam novos estímulos.

Ficha Técnica:

Legião – 2014

Roteiro: Salvador Sanz

Desenhos: Salvador Sanz

Editora: Zarabatana Books     

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