Review 2016 #39: O Sono da Morte (2016)

Muito mais um drama familiar de horror sobrenatural, com toques de fábula infantil, que qualquer outra coisa


Mike Flanagan é um dos novos diretores do gênero que vem rapidamente galgando seu espaço dentro do cinema de horror. Recentemente ele emplacou Absentia, O Espelho, Hush: A Morte Ouve, lançado diretamente na Netflix e O Sono da Morte, que estreia com um baita atraso nos cinemas brasileiros esta quinta. Além de estar na cara do gol para o lançamento de Ouija: Origem do Mal, continuação do filme de 2014 da Blumhouse Pictures e escalado como diretor da adaptação para as telas de Jogo Perigoso, de Stephen King.

Dentre seus filmes anteriores, O Sono da Morte é o que mais o aproxima de uma “grande” produção, com orçamento inflado, nomes conhecidos do grande público no elenco, como o casal de protagonistas Kate Bosworth e Thomas Jane e a sensação mirim Jacob Trembley, do aclamado O Quarto de Jack, que roubou a cena do filme e da última cerimônia de entrega do Oscar®, e consequentemente, uma obra mais mainstream e com dedos de produtores, principalmente em seu final.

Fato é que O Sono da Morte é mais um drama familiar de horror sobrenatural, com toques de fábula infantil, que qualquer outra coisa, que bebe claramente da fonte do J-Horror – que sempre soube como lidar muito bem com essa temática – e recheado de metáforas sobre perda, algo já utilizado pelo diretor anteriormente em Absentia e O Espelho.

Na trama, Jessie (Bosworth) e Mark (Jane) perdem o filho, que morre afogado na banheira, e resolvem adotar Cody (Tremblay), um garoto afável, introvertido, apaixonado por borboletas, com problemas de sono, que desde a morte de sua mãe quando bem novo, vem passando por diversos lares adotivos, misteriosamente marcado por sumiços e súbito abandono ou devolução da criança.

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Efeito borboleta

Jessie e Mark vão descobrir posteriormente que Cody tem uma espécie de poder paranormal, onde consegue materializar seus sonhos enquanto dorme. Começa com manifestações de borboletas psíquicas aparecendo na casa, até o menino descobrir o que acontecera com Sean (Antonio Romero), o filho do casal, e projetá-lo para seus pais enquanto dorme. Isso faz com que Jessie comece a usar o garoto como uma espécie de projetor, em uma relação um tanto quanto abusiva, para que a imagem espectral do primogênito falecido os visite todas as noites.

O problema é que o mesmo acontece com seus pesadelos, uma vez que ele é atormentado por uma sinistra criatura denominada por ele como “Homem Cancro”, uma figura disforme e esquelética, projeção de seu subconsciente, que fora responsável pela morte de sua mãe.

O Sono da Morte usa de recursos bastante conhecidos (e batidos) do gênero, como uma criatura feita em CGI, ambientes oníricos, sustos fáceis e a investigação da protagonista sobre o passado do garoto, para que assim ela consiga desvendar o mistério sobre seus sonhos, sua mãe e o tal “Homem Cancro”.

Mas ao mesmo tempo, seu ritmo mais arrastado, mesmo que climático em alguns momentos, misturado com muito dramalhão, afastará uma boa parcela do público que torcerá o nariz, mas que imputa uma aura mais humana ao longa, tratando da delicada questão da perda vista sob o prisma de uma criança tão jovem que não consegue entender direito ainda aquela situação e suportar tamanho fardo, inclinando para o terror psicológico no sentido bíblico da palavra, emulando um contos de fadas às avessas ao adentrar nos cantos assustadores da psique infantil.

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O sono de Jack

Mas não escapa de buracos no roteiro e soluções prosaicas, e de um final melodramático até demais, onde pelo menos uns cinco minutos de sua conclusão extremamente didática e desnecessária devida sua obviedade, poderiam ter sido jogados na lata do lixo da sala de edição. Mas vamos pensar que é um tipo de horror “familiar” – se é que isso existe – que precisa trabalhar em cima de uma mínima estrutura formulaica para fazer sucesso com seu público alvo.

Trembley mostra porque ele é o ator infante queridinho de Hollywood nesse momento, com todo seu carisma – a vontade é de também leva-lo para casa e adotá-lo, até para mim que não tem nenhum traquejo com crianças e não quer ter filhos –, superando toda a atuação no automático do resto do elenco, e Flanagan, mostra que é bom nesse treco de dirigir filmes de terror, sabendo dosar muito bem os enquadramentos, as cenas de suspense, os ataques da criatura e situações de pesadelo, usando o recurso do jumpscare, mesmo que manjado, com parcimônia, manejando a construção de atmosfera e imprimindo uma alta carga dramática, trabalhando a empatia com os personagens, aproximando-os do público, principalmente para quem já sofreu algum tipo de perda na família.

O Sono da Morte não chega a causar sono, mas está longe de ser um grande filme. Tem suas falhas e clichês, principalmente em seu final, mas funciona ao que se propõe como essa amálgama de terror, drama e fantástico.

3 borboletas monarcas para O Sono da Morte

Publicado originalmente no Boca do Inferno
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Sonhos alucinantes

 

 

 

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