O pesadelo Roanoke de American Horror Story

Um subtítulo apropriado para essa nova temporada seria: AHS – Enigma


Lembro-me com clareza de quando vi os primeiros spots e comerciais de American Horror Story no canal FX Brasil. Aqueles comerciais esquisitos com quartos vermelhos e um homem vestindo látex fisgaram minha atenção de imediato, para algo que seria um dos maiores fenômenos da televisão. O primeiro episódio da temporada foi igualmente, ou até mais atraente.

Estiloso e atmosférico, AHS mostrou-se o produto criado por um esteta obcecado com o gênero horror. Se não tivesse visto com meus próprios olhos, jamais acreditaria que Ryan Murphy também era responsável por Glee – talvez não em um primeiro momento, mas depois a correlação se fez presente.

Na época sem um subtítulo, a série se desenrolava como uma história de casa mal-assombrada com diversos elementos. Porém, estranhamente, conforme a temporada se aproximava do final, a trama ia se fechando cada vez mais. Você leitor e eu estávamos acostumados com séries cujas tramas se desdobravam por várias temporadas, mas quando nos demos conta, a primeira temporada já estava finalizada. O que viria a seguir?

O anúncio de Asylum e a ideia de uma antologia empolgou e deixou claro a proposta diferenciada da série. Cada temporada teria um certo núcleo comum de atores, mas sempre focando em diferentes tramas relativas ao horror norte-americano. Entre altos e baixos, a série se desdobrou até alcançar uma sexta-temporada, acumulando público e premiações em seu caminho. Tornou-se um hobby entre os fãs tentar adivinhar e confabular, no mid season, qual seria o tema seguinte. A primeira, passou a ser conhecida como Murder House e foi seguida por Asylum e então Coven, Freak Show, Hotel e finalmente… o quê?

ahs4.0.0.png
Sonho da casa própria

Durante os últimos meses que antecederam a estreia da sexta temporada, uma quantia imensa de vídeos e imagens promocionais apontava para elementos que pareciam não se encaixar. A confusão inicial foi logo explicada: Pela primeira vez, desde que a continuidade da série foi renovada, os fãs não saberiam ao certo o tema da temporada.

Esse tipo de dúvida era o mesmo que eu, enquanto espectador, senti antes, durante e depois da primeira temporada. Um grande ponto de interrogação no que tange o caminho da série. Em uma jogada criativa, os idealizadores retiraram o poder da mão do público forçando-os para fora de uma zona de conforto. Todo esse mistério ainda caiu como uma luva no tema dessa nova temporada, ou melhor dizendo, na forma da mesma. Dessa vez, a grande variação em American Horror Story está na narrativa e não no tema ou época: A sexta temporada é um falso documentário.

Sem aquela tradicional abertura grotesca e assustadora, o episódio inicial apresenta Lily Rabe e André Holland como entrevistados para o documentário ficcional “My Roanoke Nightmare”. Roanoke já havia sido levantada como possível tema da temporada em um dos vídeos promocionais, mas como mencionado no parágrafo acima, o diferencial da temporada reside na estrutura de documentário e não no tema, que com certeza será perpassado por várias outras coisas, como sempre acontece. Para quem não é familiar com o nome, que já foi até tema de episódio da série Sobrenatural, Roanoke era uma colônia inglesa nos Estados Unidos cujos habitantes desapareceram sem deixar vestígios no século XVI, mistério que permanece sem solução. Ao chegarem na colônia vazia, a única coisa que os ingleses encontraram, além das casas abandonadas, fora a palavra “Croatoan” entalhada em uma árvore.

No primeiro episódio desse documentário, Shelby (Lily) e Matt (André) narram sua experiência de vida sinistra, ocorrida logo após se mudarem para uma casa isolada no campo. A narração do casal é encenada dramaticamente por Sarah Paulson e Cuba Gooding Jr, como Shelby e Matt, respectivamente. Essa dramatização é mais elaborada e cinematográfica do que o normal, de forma que por vezes parece que ela é a própria série. Dentre os acontecimentos  que se passam ao redor dessa casa, denota-se uma chuva de dentes humanos, uma criatura-porco e caipiras enfurecidos com tochas. Soma-se ao casal a atriz Adina Porter (True Blood), interpretando Lee, a irmã de Matt. Na dramatização, a personagem é encarnada por Angela Basset.

american-horror-story.jpg
Grite, grite outra vez…

O que mais chama a atenção no episódio é a sobriedade resultante da busca pelo realismo documental. Enquanto as outras temporadas são marcadas por uma estilização exagerada e afetada, AHS – My Roanoke Nightmare opta por poucas cores, tons pastéis, uma direção de arte mais simples, mesmo que ainda perfeita. Os movimentos de câmera são muito mais leves e focados em criar um clima bem específico, sem firulas.

Felizmente, o trabalho dá resultado e em toda seu despojamento, o primeiro episódio foi dos mais envolventes e interessantes da série até o momento. Ainda sem uma definição clara de tema central, os mistérios estão mais nublados que nunca e as teorias dos fãs terão muita, mas muita lenha para queimar. Só para dar um gostinho, a primeira temporada havia feito referência ao nome “Croatoan” e a um homem porco que supostamente apareceria caso alguém chamasse seu nome na frente de um espelho. Lembra?

Vale ainda mencionar que essa nova temporada estreou um dia antes de Bruxa de Blair, filme que também teve um marketing enigmático, esfumaçado e também se utiliza da ideia de mockumentary, mesmo que de forma diferente. A influência de A Bruxa de Blair (o original, de 1999) sobre AHS é clara, em uma referência direta já na reta final do episódio.

Além dos atores citados, os créditos ainda indicam o retorno de Kathy Bates, Peter Evans, Wes Bentley e Dennis O’Hara, figuras recorrentes na série. American Horror Story – My Roanoke Nightmare é uma temporada para tirar os fãs do conforto e mudar todo o entendimento que se tem sobre a série, um verdadeiro sopro de ar fresco que merece toda nossa atenção.

da9896f9acb68dc2_AHS.jpg
Meet me in Croatoan

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s