Review 2016 #42: Mate-me Por Favor

Drama adolescente de terror nacional é um réquiem para a morte


Aos navegantes desavisados, o título Mate-me Por Favor pode remeter a adaptação cinematográfica do seminal livro homônimo de Legs McNeil e Gillian McCain que narra a história do movimento punk. Mas não se trata de nada disso. Estou falando do longa de debute – depois de três curtas metragens – da jovem diretora Anita Rocha da Silveira, que acima de tudo é um réquiem para a morte.

Após ganhar o prêmio de Melhor Atriz para Valentina Herszage e Melhor Direção no Festival do Rio e ter sua première mundial no Festival de Veneza, a fita nacional chegou aos cinemas brasileiros em circuito restrito, eclipsado pela estreia de Bruxa de Blair.

Entendível essa restrição de exibição, uma vez que Mate-me Por Favor não é um filme mainstream de fácil compreensão, principalmente por conta da abordagem completamente metafórica, subjetiva, reflexiva e abuso de exibicionismo formal por parte de Anita Rocha.

Presenciamos um drama adolescente misturado com pitadas de elementos do horror e humor negro, com altas doses subjacentes de crítica social, principalmente no que tange o universo da puberdade da classe média carioca (mais precisamente da região da Barra da Tijuca) e sua mais completa falta de expectativa e apatia crônica.

Mate-mePorFavor5.jpg
Confissões de adolescente

A vida e banalidade daquele grupo de meninas do ensino médio, cuja personagem principal é Bia (Herszage) concentra-se no pátio do colégio durante os recreios e as aulas de educação física e os condomínios de seus apartamentos, que transmitem uma falsa sensação de segurança, uma vez que é ladeado por um terreno baldio onde um novo empreendimento será erguido. A rotina é afetada quando um serial killer passa a matar jovens (inicialmente apenas garotas, mas depois os meninos passam a ser suas vítimas também) no meio daquele descampado.

Aliás, o início do longa é de uma beleza e atmosfera ímpares, muito bem conduzido por Anita Rocha e pela fotografia de João Atala e edição de som de Bernardo Uzeda, onde uma garota perdida na noite carioca embrenha-se por esse matagal, perseguida pelo psicopata. O acontecido desencadeia uma série de eventos em série que quebra o status quo daquela galerinha que só quer saber de beijar, dançar funk, falar sobre garotos e ficar no celular, atingindo-os quase como uma doença contagiosa psicossocial.

Porém, a vida de Bia muda drasticamente quando ela presencia uma dessas vítimas agonizando e aquele evento catalisador funciona como um gatilho mental que faz a garota desenvolver uma curiosidade mórbida e apreço pela morte, aqui como metáfora de um agente transformador – algo tão comum na adolescência – alterando completamente seu comportamento de forma lenta e degradante até uma queda psicológica iminente – interpretada de forma brilhante pela novata jovem atriz – que corrompe seu comportamento com suas amigas, suas rivais, seu namoradinho evangélico falso moralista e seu irmão que monopoliza o notebook obcecado por uma garota que não responde suas ligações ou inbox do Facebook, tudo isso enquanto sua mãe está sempre fora de casa em um relacionamento com seu novo namorado.

Tarantula.jpg
BBB

O desinteresse inexorável de toda uma geração, a frivolidade e a capacidade de não criar relações e vínculos, e principalmente, a inexistência de adultos na trama, mostrando a completa decadência da instituição familiar que reflete na falta de compromisso que se espelha na juventude de prazeres e sentimentos efêmeros, faz com que Mate-me Por Favor beire uma certa comparação com Corrente do Mal, dada suas devidas proporções, só que refletindo a realidade brasileira do ensino colegial – principalmente carioca – tão mais próxima a nós que qualquer um daqueles jovens vivendo em subúrbios americanos dos filmes da Sessão da Tarde ou de Stranger Things, que gostamos tanto de emular por conta de anos e anos de doutrina cinematográfica. É oque temos em termos de terror adolescente tupiniquim.

Outro ponto interessante, que aumenta a sensação de desolação e deslocamento daqueles jovens é a escolha de cenários, locações e a fotografia, principalmente por retratar outra visão do Rio de Janeiro, pouco conhecida do grande público espectador das telenovelas da Rede Globo, distanciando os personagens das praias ensolaradas ou mesmo das comunidades, para um ambiente de concreto, sem vida, quase tão apático quanto os próprios personagens, bem distante do imaginário popular da Cidade Maravilhosa. Tratando-se de aspectos técnicos, o filme é impecável.

O desvio cômico de um tema tão denso em um longa hermético e repleto de momentos sufocantes e de reflexão nível hard se vem na forma da trilha sonora, toda pontuada por funk e funk melody (assinada pelo Bonde do Rolê) e pelos arquétipos caricatos e estereótipos de alguns personagens, sendo seu suprassumo a pastora evangélica que retrata muito bem a hipocrisia da religiosidade tacanha do brasileiro médio.

Mate-me Por Favor é uma ode à morte e a tudo que ela representa, como a angústia, falta de esperança e desmotivação, o fim de um ciclo, um ritual de passagem. Só que discussão filosófica e social a parte, em seu core, é um filme deveras chato, de difícil digestão, recheado de um preciosismo minimalista, incapaz de prender a atenção do espectador por completo, apostando apenas na subjetividade e na estética artsy, que o arrasta para um marasmo quase que sem fim, fazendo com que em alguns momentos da metragem, de fato seja preferível estar morto(a).

2 músicas do Claudinho e Buchecha para Mate-me Por Favor

512049.jpg
#chateada
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s